Trânsito controlado
Radares, pardais, caetanos e lombadas eletrônicas se multiplicam em ruas e rodovias do Brasil como alternativa para reduzir o número de acidentes
A partir de janeiro de
2001 todos os radares móveis usados pelas
polícias rodoviárias para controlar excesso de velocidade deverão permitir o
registro fotográfico do veículo infrator. No Brasil existem cerca de dois mil
controladores eletrônicos de velocidade espalhados em 50 cidades. Na capital
gaúcha, 12 radares conhecidos como pardais, já funcionam desde abril de 1999 e
este mês foram ativadas 4 novas lombadas eletrônicas. Esses dados, a maioria
do engenheiro civil, especialista em transporte, Alan Canell, mostram que os
controladores de velocidade vieram para ficar e serão cada vez mais utilizados
para coibir excessos, imprudência ou mesmo os erros dos motoristas.
No estudo realizado pelo consultor que será publicado no início do próximo
ano, o Brasil aparece como detentor do maior programa de controle de acidentes
de trânsito do mundo. "Os controladores eletrônicos, quando bem
aplicados, estão conseguindo diminuir significativamente o número de
acidentes, mas ainda há muito o que fazer para que todos os brasileiro dirijam
com responsabilidade veículos bem revisados, em ruas e estradas
adequadas", conta ele. Mesmo ainda estando longe do ideal, pesquisas
mostram que o Brasil já poupa vidas de 1.500 pessoas por ano em função do
sistema de fiscalização por equipamentos eletrônicos.
De acordo com Canell, dois são os principais problemas do programa de combate
aos acidentes de trânsito no Brasil: pouca fiscalização com relação a
ultrapassagem de sinal vermelho e embriaguez na direção. "Esses dois atos
ilícitos ainda causam muitos acidentes e fazem vítimas em diferentes locais
desse país", reclama. Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito,
20 pessoas morrem por dia hoje no Brasil em acidentes de trânsito.
CLAREZA E
TRANSPARÊNCIA
"A sociedade precisa conhecer as regras do jogo", enfatiza o consultor
ao se declarar totalmente contrário a controladores colocados em locais pouco
visíveis ou mal sinalizados. Afirma que a transparência na relação com a
comunidade tem sido fundamental para que um programa de controle de tráfego
obtenha êxito. " É preciso provar com números e estatísticas que um
controlador instalado diminui o número de acidentes em determinado local, que
também deve estar devidamente sinalizado", ressalta Alan. Ele também
acredita que as cidades precisam fazer um cadastro georeferenciado de acidentes
para definir onde devem ser instalados controladores, sob pena de colocá-los em
locais inadequados, pondo em risco a credibilidade do programa. De
acordo com a legislação federal incorporada pelo Código de Trânsito, cada
equipamento controlador antes de ser instalado precisa ter aprovação do
DENATRAN, que emite sua autorização baseado em justificativa documentada com
estatísticas de acidentes no local. Além disso, é preciso obter registro no
Instituto Nacional de Propriedade Industrial e submeter o equipamento a uma
aferição do Inmetro. "Temos todos os cuidados para garantir a
credibilidade dos controladores eletrônicos instalados no Rio Grande do
Sul", garante o coordenador dos sistemas eletrônicos de operação
rodoviária do DAER, engenheiro eletricista Paulo Aguiar. Segundo ele, cada vez
que existe uma alteração no equipamento é preciso nova aferição do Inmetro.
Logo que os controladores começaram a ser implantados no Estado, o CREA/RS se
manifestou quanto a necessidade de se ter profissionais habilitados nas empresas
fabricantes e durante as revisões feitas nos equipamentos já instalados.
"Esses controladores são equipamentos sofisticados e precisam estar
totalmente respaldados pelo trabalho de um técnico para obterem credibilidade e
validade jurídica", declara o presidente do CREA/RS, arquiteto Edson Dal
Lago.
ESTRADAS
Nas estradas estaduais existem 25 pardais e 87 lombadas eletrônicas.
"Usamos os radares móveis para controlar a velocidade de um determinado
trecho e lombadas para atacar locais específicos que tenham travessia de
estudantes ou pessoas enfermas", explica o engenheiro Paulo. A intenção
é terminar o ano com pelo menos mais 100 lombadas eletrônicas instaladas.
Segundo o consultor Canell, é importante que o valor arrecadado com as multas
emitidas não seja utilizado em nada, além de melhorias nas estradas.
Em levantamento recente feito em rodovias monitoradas com pardais, o DAER
apontou que a média de autuações por rodovia não ultrapassa 1,5% do total de
motoristas que circulam no local pequisado. Isso significa que cerca de 98% dos
motoristas que trafegam nas estradas controladas não são multados e essa não
é uma realidade apenas do Rio Grande do Sul, acontece na maioria dos locais
onde há radares de velocidade.
Nesse último levantamento realizado, o único trecho que apresenta elevado
número de autuações (15%) é o que liga Bento Gonçalves a São Vendelino, na
RST/470. "Isso deve-se a um fato específico: o pardal da RST/470 ficou
muito tempo instalado esperando autorização para ser ativado e quando
finalmente começou a funcionar pegou alguns desavisados, mesmo depois da ampla
divulgação feita na Região", garante o coordenador do DAER.
Inspeção veicular é obrigatória na Suécia há 35 anos
A experiência européia foi abordada por especialista durante Simpósio
A Semana Panamericana de
Trânsito realizada em Gramado, no mês de novembro, trouxe diversos
especialistas internacionais no setor para ministrar simpósios, seminários,
workshops e fóruns. Entre eles, Ove Danerlöv, responsável pelo programa sueco
de Inspeção Veicular e membro da Associação Internacional de Inspeção
Veicular. Em sua exposição, Danerlöv contou que o grande aumento do
transporte e tráfego nas estradas da Europa nas décadas que se seguiram à
Segunda Guerra Mundial criou grandes problemas na segurança das rodovias, o que
levou os governos a buscarem soluções. Muitas ações foram tomadas e uma
delas, considerada por ele como de grande importância, foi a inspeção
veicular obrigatória para todos os veículos. A Suécia adotou a inspeção
veicular obrigatória em 1965.
Uma empresa especial, na qual o Governo é acionista majoritário (52%), se
tornou responsável pela operação do sistema. Também fazem parte da empresa
Associação de Empresas de Seguros (12%), a Associação de Oficinas (12%),
Associação de Motoristas (15%) e a Associação de Transportadores (9%).
Quando iniciaram sua operação na Suécia, 108 eram as estações, com 500
empregados no total. Hoje existem no país 175 estações de inspeção
veicular, com 2.200 funcionários e cerca de 600 inspecionistas. Esses
profissionais recebem um treinamento ostensivo, através de uma Escola criada
para este fim, que oferece atualização anual para os formados. "Damos
muito valor para a qualidade da mão de obra que realiza as inspeções, por
isso se um funcionário se afasta por mais de um ano, ao voltar ele tem que se
submeter a teste e provar que ainda tem competência para a função",
falou Ove Danerlov durante sua explanação no Simpósio Satélite.
ENQUANTO ISSO NO
BRASIL
A Inspeção veicular no Brasil continua indefinida, esperando decisão do
governo federal. O principal problema é definir quem será responsável pelo
controle da frota de veículos: os estados ou a União. Mais uma vez, a briga é
por receita, já que aquele que tiver a competência de inspecionar os veículos
periodicamente irá engordar o orçamento em alguns milhões.
No Rio Grande do Sul, uma lei do deputado Beto Albuquerque, aprovada pela
Assembléia Legislativa no governo Britto, passou aos municípios a
responsabilidade pela Inspeção Veicular. Os deputados ao aprovarem a lei,
entenderam que, como a fiscalização do trânsito foi municipalizada, os
recursos com a inspeção também deveriam ficar na esfera municipal. Assim que
assumiu o Governo, Olívio Dutra sancionou a lei, mas o Departamento Nacional de
Trânsito editou em seguida uma resolução federal suspendendo a decisão
gaúcha.
CREA EXIGE
PROFISSIONAIS HABILITADOS
A Inspeção veicular começou a ser discutida no Rio Grande do Sul em l996,
quando o Governo do Estado iniciou o processo chamado Novo Detran. A primeira
fase do projeto, quando foram instalados os Centros de Habilitação de
Condutores, já causou polêmica resultando na instalação de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito que também apurou irregularidades no edital de
licitação para a Inspeção Veicular que passaria o serviço à iniciativa
privada.. Na época o CREA/RS se pronunciou exigindo, inclusive judicialmente,
que todas as empresas candidatas a Inspeção Veicular fossem registradas no
Conselho, além de solicitar a presença de profissional legalmente habilitado
para emitir laudos técnicos de trafegabilidade.
De acordo com o chefe da divisão de veículos do DETRAN, engenheiro mecânico
Gilson Araújo de Araújo, sete engenheiros mecânicos concursados foram
contratados pelo Governo para coordenar a Inspeção Veicular. "Nós
estamos realizando outras tarefas no momento, mas assim que houver uma decisão
iremos coordenar a implantação das estações no Estado". Ele acredita
que é cedo para voltar a discutir o assunto, já que não se sabe quando o
Contran irá definir como ficarão as inspeções veiculares no país. Entre os
itens mais polêmicos do texto da Resolução 84/98, está o que trata da
capacidade e tecnologia exigida do proponente prestador dos serviços, já que
as exigências técnicas acabam levando à aquisição de equipamentos
importados. O chefe da Divisão de Veículos do Detran garante, no entanto, que
a composição de cada estação e seu funcionamento será definida pelos
técnicos do Departamento, que são engenheiros mecânicos, tomando como base a
NBR14040 - Inspeção de Segurança Veicular - Veículos Leves e Pesados, e as
frotas dos municípios.
Equipamentos de fiscalização eletrônica
Existem quatro tipos
principais de equipamentos para fiscalização eletrônica: as barreiras
eletrônicas ostensivas, conhecidas como lombadas eletrônicas, as barreiras
eletrônicas discretas, conhecidas como pardais, os radares móveis e os
equipamentos para fiscalização de avanço de sinal, apelidados de "caetanos".
Pardais têm como função fiscalizar a velocidade em ruas ou rodovias.
Normalmente funcionam 24 horas por dia.
Radares móveis têm a mesma função dos pardais, mas são comumente usados
pelas polícias rodoviárias e blitzes de trânsito, ou seja, esporadicamente,
em ações policiais específicas.
"Caetanos", por sua vez, fiscalizam a obediência ao sinal vermelho e
à faixa de pedestres. As lombadas eletrônicas visam garantir uma velocidade
segura em locais que oferecem perigo a motoristas e pedestres, como em áreas de
travessia próximas a escolas, hospitais e em cruzamentos ou curvas perigosas.