Jornal do CREA-RS - Maio / 2004 - Ano XXIX - Nš 13
 
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Cadeia produtiva do segmento está organizada em comitê na Fiergs.
Pinheiro Americano preocupa comunidades

De acordo com o inventário florestal contínuo do Rio Grande do Sul, o aumento de florestas plantadas no Estado foi de 100.352ha nos últimos 18 anos, o que representa 0,35%. Uma das espécies mais utilizadas nos reflorestamentos é o Pinus Eliottii ou o Pinheiro Americano, como é popularmente conhecido. De importância comercial singular, esta espécie de pinus oriunda dos Estados Unidos é muito utilizada pela indústria moveleira, por sua qualidade e versatilidade.

O inventário recomenda a implementação de uma política de estímulo ao plantio de novas florestas, a fim de evitar, a médio prazo, a escassez de madeira de qualidade. Embora o reconhecimento pela necessidade de plantar florestas seja uma unanimidade entre os especialistas na área, muitas vozes têm se levantado para o perigo das plantações descontroladas, sem o manejo adequado de espécies exóticas (não-naturais na região) como o Pinheiro Americano.

De acordo com a Ageflor, Associação Gaúcha de Empresas Florestais, a
cadeia produtiva de base florestal no Rio Grande do Sul gera um PIB em torno de R$ 3,5 bilhões anuais, distribuídos na indústria moveleira, com R$ 2,5 bilhões, celulose e papel R$ 500 milhões e R$ 500 milhões em outros segmentos, como madeira serrada, construção civil, chapas, aglomerados, postes, lenha, carvão e não-madeiráveis, como tanino e resinas.

A associação enfatiza que "esse segmento da economia gaúcha é responsável pela geração de mais de 200.000 empregos diretos e indiretos e participa em 5% na receita do ICMS estadual", sendo que o pinus eliottii é a terceira maior cultura de árvore exótica no Estado.

Esta espécie é de fácil propagação, na medida que dispersa suas sementes durante todo o ano e, em algumas épocas, chega a atingir um índice de cerca de 90% de germinação. A associação Núcleo Amigos da Terra Brasil fez em 1999 uma denúncia ao Ibama e ao Ministério Público sobre a plantação de árvores exóticas na área do Parque Nacional da Serra Geral, entre elas o Pinus Eliottii e o Eucalipto, que impacta no consumo de água nas áreas onde é plantado.

A coordenadora executiva da entidade, Káthia Vasconcellos Monteiro explica que a associação é favorável ao desenvolvimento de florestas plantadas. "Nossa preocupação é de que se defina um zoneamento adequado para estas plantações, evitando a contaminação de áreas protegidas e garantindo a manutenção das paisagens naturais".

Khátia contesta a noção de "deserto verde", afirmando que o pinus eliottii não impede a desenvolvimento de outras espécies vegetais. O núcleo defende, assim, que as florestas sejam plantadas em regiões onde elas já tenham existido e jamais em áreas como o pampa gaúcho, por exemplo, onde o "impacto por plantações de florestas pode ser desastroso", explica Káthia. Ela cita o Parque Nacional da Lagoa do Peixe como um exemplo onde a invasão de árvores exóticas mudou a direção dos ventos na área de preservação. Com isso, a areia carregada pelo vento está assoreando parte do canal responsável pelo trânsito de animais da lagoa, afetando a fauna, a flora e os recursos hídricos da região.

O eng. florestal Juarez Hoppe, professor da UFSM, explica que a árvore adaptou-se de forma excelente no Estado e foi fundamental para alavancar o setor florestal brasileiro. Por ser de regeneração intensiva, ela ampliou, em determinados locais, seus povoamentos de forma irregular. O eng. alerta, no entanto, para a importância econômica deste setor e afirma que não existe qualquer necessidade em erradicar o pinus do Estado, mas, pelo contrário, apenas manejá-lo adequadamente, aprimorando os cuidados.

Hoppe explica, também, que não existe uma distância de proteção padrão para evitar a invasão em áreas protegidas. Cada caso deve ser analisado individualmente por um profissional, já que são diversos os fatores que influenciam neste aspecto. Hoppe cita, por exemplo, as plantações próximas a estradas, que podem levar sementes por longas distâncias.

A região do Alto da Serra já vem se preocupando com a questão há um certo tempo. As plantações de florestas tem tido um impacto econômico positivo na região, movimentando a indústria moveleira e gerando negócios em diversos níveis. Existe, no entanto, o interesse da região em se transformar em um pólo turístico no estado, em razão do seu potencial, principalmente, das belezas naturais.

A plantação descontrolada de florestas pode pôr um fim nesta ambição, já que impactaria diretamente sobre a manutenção das paisagens. O secretário de agricultura do município de São José dos Ausentes Fábio Gelson Williges explica que a prefeitura está estudando a possibilidade de limitar a cerca de 10% da área do município a plantação de florestas exóticas. "Isto ainda está sendo estudado em conjunto com a secretaria de turismo e demais envolvidos. Pretendemos encaminhar a questão à Associação dos Municípios das Hortênsias e buscar uma solução conjunta para toda a região", conclui.

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