Jornal do CREA-RS - Maio / 2004 - Ano XXIX - Nš 13
 
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CÂMARA DE ENGENHARIA FLORESTAL

Falta de madeira para a construção civil
Eng. Fltal. MSc. Edison Bisognin Cantareli
Inspetor-secretário CREA-RS/Santa Maria

Hoje, o setor que mais utiliza madeira processada mecanicamente no Brasil é o da construção civil, com 21% das vendas. Esse segmento poderia representar muito mais se o país tivesse o hábito de utilizar estrutura de madeira ao invés de estrutura metálica. Nos Estados Unidos, 85% das casas são feitas de madeira, no Brasil, não chega a 20%.

A madeira do gênero Pinus é a principal matéria-prima do setor de processamento mecânico de madeira, que hoje emprega 1,5 milhão de pessoas e representa 1,5% do PIB. Importando muito pouco, o Brasil tem um lucro líquido de US$ 4,5 bilhões na balança comercial, sendo US$ 1,5 bilhões em

exportações. Para 2003, a projeção é que esse volume de negócios de produtos fabricados a partir da madeira processada mecanicamente duplique. Isso inclui compensados, laminados, pisos, molduras, componentes, portas e madeira serrada.

No entanto não é difícil prever a falta de madeira no mercado, principalmente na construção civil que consome muito mais madeira que imagina-se.

De acordo com Laroca & Matos, o uso da madeira para fins permanentes na construção civil, para uma unidade de 50m² de alvenaria é em média 3,8m³ de madeira, desses 3,4m³ são madeira serrada e 0,4m³ em painéis para usos não definitivos. Isso corresponde aproximadamente a 10 árvores por unidade de 50m². Vale lembrar que a construção civil utiliza ainda madeira que não são permanentes, como "pé-direito", tábuas para andaimes, formas, etc..

Em contrapartida a tudo isso está o déficit de plantio do gênero Pinus. A região sul possui em torno de 950 mil hectares de Pinus, 650 mil no Paraná e 150 mil em Santa Catarina. Conforme o Inventário Florestal do Rio Grande do Sul realizado pela UFSM, o estado possui 153.360 hectares de Pinus, ou seja, 0,54% da cobertura do estado.

No RS os reflorestamentos em grande escala de espécies exóticas se resume a empresas do setor florestal que consome madeira para produção de celulose, papel e móveis. Atualmente existe apenas duas regiões produtoras de madeira de Pinus para fins da construção civil. Ou a madeira vem da serra gaúcha ou do sul do estado, onde os plantios foram realizados sem o devido manejo e hoje temos uma madeira de baixa qualidade, com muitos "nós" e pequeno diâmetro. O incremento médio anual é de 18,28m³/ha/ano e o diâmetro médio é de 21,2cm, índices de produtividade muito abaixo de um consumo crescente que temos no estado. Já é visível a preocupação dos donos de madeireira pela falta de oferta de madeira deste gênero.

Há uma grande dificuldade de implantação de florestas nas propriedades rurais do RS. O incentivo por parte do governo é algo muito discutido, mas temos exemplo nos nossos vizinhos Argentina e Uruguai, países que realizaram o incentivo do plantio de florestas e hoje possuem uma produção de madeira na divisa com o RS invejável pela alta tecnologia aplicada e investimentos. Mas com certeza o maior mérito está na instalação de empresas internacionais gerando emprego e desenvolvimento a regiões muito pobres como nordeste da Argentina (Corrientes e Misiones). Empresas chilenas são os grandes responsáveis por esse desenvolvimento, estas já estão presentes também em Santa Catarina e Paraná, estados que serão os próximos fornecedores de madeira de Pinus para o RS se assim se mantiver esta situação.

A construção civil tem uma demanda em potencial , possivelmente muito maior que o setor de móveis, por outro lado soluções que agregam tecnologia ainda não são difundidas. Não temos outra saída, necessitamos de uma imediata produção de madeira de Pinus e Eucalyptus com espécies e manejo adequado para a construção civil.

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